É por bons motivos que eu estava injuriado. Mesmo assim não resisti. Me olhei no espelho e resolvi sair pra tentar me convencer a fazer alguma bobagem. E fiz. Calculei a hora em que as turmas saem numa sexta, fiz a barba para não parecer um cara velho, vesti uma roupa de mais cores, justa no corpo, gel no cabelo, óculos coloridos, anéis e colares... estava mesmo um tanto... não sei como dizer, mas pela rua me chamaram de "bicha", "modelo fashion", "palhaço punk" e outras como "ponto disfarçado de asterisco". Dá pra acreditar?
Tudo bem. Eu não ligo pra essas coisas. Eu fico mesmo é com pena dos que por algum motivo não são livres por si mesmo, dos que por qualquer motivo se incomodam e buscam atitude tanto quanto idiota, dos que por todos os motivos se matam aos poucos numa infinita procura de ilusões. Os antigos guerreiros eram bons em curtir a vida. Afinal, o que é mais adrenalínico do que as faíscas de algumas espadas bem pesadas se chocando em busca do seu peito ou seu pescoço?
Um tanto injuriado e odioso é um guerreiro. Sua vida resume-se em uma certa matança, talvez uma certa ignorância em respeito ao próximo, uma certa intolerância aos bons modos e uma total imparcialidade quanto à vida humana e seus valores.
A noite se descobria a cada segundo. A cada lugar que a visão percorria era um momento único e inesquecível na inconfortável busca de bobagens. Eu, na minha perplexa visão inconformada, tentei por um minuto não enxergar o que via, mas era impossível segurar os meus pensamentos. Sinceramente, não sou eu que os guio e nem os crio. Os pensamentos simplesmente surgem dentro de minha cabeça. São como uma tempestade incansável sobre uma área já alagada.
Mas que diferença há entre os antigos guerreiros imbecis e os atuais vândalos? Eu sempre vejo algum motorista na rua xingando um outro. "Filho da Puta", "Vai tomar no Cú", "Sai daí ô", "Comprou a Carteira?", "Ô Anta", "Desgraçado", “Tinha que ser Mulher”. Sempre tem um desses "meninos" de rua com um gargalo de garrafa na mão. Só o gargalo, não a garrafa inteira. Sempre tem um punk com uma lata de spray na mão pixando as estátuas da praça da estação. Sempre tem um mendigo enriquecendo em um semáforo. Sempre tem um político desviando a verba da cultura, da saúde, do esporte, da educação e/ou de qualquer outra área, para contas bancárias fantasmas em algum lugar. Sempre tem uma banca de revistas na calçada cheia de notícias escandalosas. Sempre tem uma equipe contratada pelos EUA para ter o controle da guerra. Sempre tem uma mulher de seios fartos e bunda grande nua estampada em qualquer lugar. Sempre tem tanto sempre que para sempre será sempre.
Jovens não precisam ter vinte anos. Jovem pode ter doze ou quarenta e dois. Jovem que é jovem sempre foi e será jovem. Quem não é jovem nunca será. E quem busca ser jovem é brega ou desorientado. Taí o meu conceito de jovem: Jovem é aquele que não se conforma e se manifesta a respeito do mundo atual, as imposições do sistema ou qualquer manifestação política inadequada e incoerente. Jovem é aquele que se rebela diante os fatos que acreditam estarem incorretos. Eu me considero um cara jovem. Não fico calado diante dos absurdos mundiais. Mas também não acho que ficar gritando os outros no meio da rua seja uma forma pós-conceituosa de interagir com as idéias sociais. Digo isso pelos que me chamaram de "bicha", "modelo fashion", "palhaço punk" e "ponto disfarçado de asterisco".
Já disse que não ligo para os nomes que me chamam. Mas onde será que está a incoerência de um cara vestido do jeito que quer? Será que esse cara é politicamente incorreto? Será que ele não trabalha? Será que fica pedindo esmolas num farol? Será que ele tem uma namorada ou namorado? São tantos serás que nenhum é palpável. Posso fazer quantas afirmações quiser. Posso ser mesmo um qualquer coisa que quiser.
Mesmo assim eu me exponho. Me mostro a cara a tapa. Me corto com o pedaço do espelho quebrado. Me jogo contra a parede num ato de alegria. Saio na sexta à noite sozinho. Deixo que o que algumas pessoas chamam de xingamento não me atinja. Não suporto ver uma mulher chorando. Ligo pra polícia quando vejo alguém sendo assaltado. Eu mesmo prendo o pivete que ameaça uma pessoa na rua.
Depois disso tudo ainda me chamam de palhaço. Ah, se eles soubessem. Eu sou mesmo um palhaço. Só que eu sou profissional. Palhaço profissional. E tenho orgulho. Acho que é preciso ter um reconhecimento nessa área. Quando fui me alistar no exército, a moça me perguntou: "Qual é sua profissão?". Eu tive que responder sinceramente: "Palhaço.". Então ela disse: "Quero a sua profissão de verdade.". Na hora eu inventei uma pra ver se colava: "Músico.". Não é que deu certo? Lá na lista que ela tinha em mãos havia um campo com a profissão: músico. Tinha que ter um campo para palhaço.
Não sei ao certo, mas deve haver um monte de profissões por aí que ninguém dá a mínima. E por isso, quando estou num semáforo fazendo números de malabarismo, passa alguém na rua e grita: "Vai trabalhar, ô!". Êta pessoal que gosta de gritar. Parece que nunca gritaram quando crianças. Quando eu tinha uns dez anos, adorava subir na Serra do Curral e ficar gritando lá de cima. Eu gritava até ficar bem rouco, sem quase poder falar. Hoje não lembro bem "o quê" realmente eu gritava, quais eram minhas palavras, mas sei que mesmo quando gritava AAAAAAAAHH..., era um prazer incomensurável.
Acho engraçado o prazer de uma criança. Acho engraçado também o meu prazer. São coisas tão mínimas, vistos aos olhos experientes das pessoas adultas, que eu acho engraçado. Rio à beça. Às vezes fico todo arrepiado. Só de pensar que um simples sorriso pode modificar toda uma vida, fico mesmo sorrindo sempre.
Deve ser por isso que as pessoas ficam gritando os outros na rua. Quem dá o grito deve se sentir satisfeito. Deve ser como alguns orgasmos seguidos (porque hoje ninguém mais se satisfaz com um orgasmo só), até a exaustão total. Deve ser como correr na São Silvestre. Escalar o Himalaia. Deve ser a mesma coisa que eu sentia quando gritava do alto da Serra do Curral. Porém sem o eco da Serra.
Nessa noite, pensando um monte ao mesmo tempo e com tantas idéias, surgiu uma que me impressionou: Já que o prazer é de gritar, darei a quem grita o prazer do eco! Então tudo que gritavam a mim eu respondia: "Ô bicha" - "Ô bicha", "Ô fashion" - "Ô fashion", "Ô palhaço punk" - "Ô palhaço punk", "Ô Filho da Puta" - "Ô Filho da Puta", "Vai tomar no Cú" - "Vai tomar no Cú", "Sai daí ô" - "Sai daí ô", "Comprou a Carteira?" - "Comprou a Carteira?", "Ô Anta" - "Ô Anta", "Desgraçado" - "Desgraçado", “Tinha que ser mulher” - “Tinha que ser mulher”, "Vai trabalhar ô" - "Vai trabalhar ô".
Esse povo, viu, vou te contar. Não têm mais nada o que inventar. Quando falo assim eu me incluo na lista. Sem hesitar. Quando grito alguém na rua é porque alguém está longe e preciso muito falar alguma coisa importante. Senão eu passo batido. Viro pro outro lado. Atravesso a rua. Faço qualquer coisa, a não ser gritar. Eu tinha mesmo que passar por isso. Já estava sentindo no ar. Sexta-feira, à noite, umas calçadas escuras, alguns passos no meio da rua, uma roupa colorida, barba feita, gel no cabelo, o mundo parecia que se partiria ao meio.
E já que tudo estava mesmo um tanto muito esquisito, resolvi tomar um bom "banho de poça", numa poça d’água que estava na rua Tomé de Souza, entre a avenida Cristóvão Colombo e a rua Pernambuco, para ver se escurecia algum pensamento (que estavam muito claros). Depois dei um abraço na loira vestida de branco e voltei para casa, lembrar do que aconteceu, e escrever isso para quando houver momento oportuno, mostrar àqueles que participaram sem saber de um pedaço de papel escrito por um compositor desconhecido que acredita em um mundo onde o prazer é encontrado na simplicidade, que a roupa usada por uma pessoa não interfere no seu ponto de vista, que a satisfação é fruto do que as pessoas têm dentro da cabeça, que os países não deveriam ter fronteiras (traçadas, políticas ou culturais), que existe forma de governo honesta, que todas as pessoas são iguais em inteligência e sentimento, que as pessoas unidas podem fazer o que quiser (até restaurar a natureza que foi destruída no planeta), que ama tanto todas as pessoas a ponto de viver pelo fato de viverem elas: as pessoas.